Alunos da USP vindos da rede pública enfrentam dificuldades

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Alunos ingressantes na USP oriundos de escolas públicas enfrentam diversas dificuldades na universidade. As principais delas são o gerenciamento do tempo, as avaliações aplicadas e os conteúdos das aulas, considerados por eles como muito mais complexos do que a base oferecida no cursinho ou na escola os preparou para encontrar na universidade. Outros fatores são dificuldades de relacionamento entre os alunos, que deriva da falta de espaços para socialização em algumas unidades, e o distanciamento da relação entre alunos e professores.

O estudo da professora Valéria Cordeiro Fernandes Belletati, realizado na Faculdade de Educação (FE) da USP, avaliou os fatores considerados mais difíceis para o sucesso de alunos da escola pública que ingressam na Universidade de São Paulo. A partir de um levantamento quantitativo, a professora decidiu abordar alunos de três cursos, Licenciatura em Física, Ciências Biológicas e Letras. “Escolhi um curso de cada área de conhecimento (exatas, biológicas e humanas) considerando, em relação a alunos provindos da escola pública, índices de evasão no semestre de ingresso bem como o número absoluto de ingressantes”, explica a pesquisadora.

Foram feitos, em 2009, contatos com 40 alunos ingressantes para saber quais as principais dificuldades encontradas, como eles avaliavam o início das aulas, organizavam o currículo, se sabiam como obter bolsas e auxílios e se conseguiam aproveitar o ambiente universitário. A principal dificuldade apontada foi o mal gerenciamento do tempo. “Muitos trabalhavam e não conseguiam realizar todas as tarefas. Outros gastavam até três horas por dia em locomoção para chegar à USP e voltar para casa, além de simplesmente não conseguirem se organizar”, afirma Valéria.

Outro problema apontado foram as avaliações. Muitos têm dificuldade de se preparar bem para as provas, continuam com dúvidas sobre o conteúdo mesmo após a avaliação ou não entendem o que é pedido. “Eles saíam-se bem nas aulas e mal nas provas. Isso acontece porque na universidade os professores vêem a prova como classificação, e não como avaliação”, explica a pesquisadora. As provas não são utilizadas como diagnóstico das dificuldades dos alunos para que, a partir disso, o professor possa elaborar melhor a continuação das aulas, nem favorecem a adoção de um enfoque profundo de aprendizagem pelo aluno ingressante.

Professores distantes
Os alunos também se queixaram dos conteúdos ensinados em sala de aula. Em comparação com a base aprendida na escola ou no cursinho eles são muito mais complexos. “Pode-se afirmar que o ensino médio, nesse caso, é insuficiente para a continuação dos estudos na faculdade. Isso não significa que eles desejem reduzir a complexidade dos conteúdos. Para além de uma crítica com relação ao ensino básico, temos que repensar como a didática na universidade pode contribuir para a minimização do problema”, diz Valéria. Um aspecto que não ajuda a diminuir este problema é a relação distante entre alunos e professores. “Os professores não são acessíveis fora do horário de aula. Muitas vezes os graduandos recorrem a mestrandos e doutorandos a função de plantonista. Apesar de muitos alunos virem como positiva a intervenção dos monitores, a interação dos professores com os alunos é fundamental para que a aula seja direcionada conforme a necessidades destes alunos.”

Em 2010, a pesquisadora voltou a conversar com dez dos alunos para ver se no segundo ano de universidade as dificuldades persistiam. “A universidade não os ajuda a diferenciar ensino médio de ensino superior, cujas finalidades são de formação técnica, científica e política. Os alunos também não reavaliavam o percurso curricular nem reduzem a carga horária, sentindo a obrigação de seguir a previsão fornecida pela instituição. O que conta muito para os alunos vencerem as dificuldades são as características pessoais. Alunos mais ativos, extrovertidos, com experiência anterior em universidades e com mais iniciativa são os que têm mais facilidade”, explica a autora.

Perguntados sobre como tentavam superar os problemas, nenhum aluno apontou o professor como suporte. “Eles buscam ajuda de amigos, colegas de sala, na internet, na biblioteca ou com monitores”. Segundo Valéria, os professores precisam atentar ao perfil dos alunos e devem aproximar-se mais deles. “Os docentes não têm formação pedagógica, mas deveriam ter. Ele precisa discutir e refletir sobre a função da universidade e conhecer individualmente os alunos, suas dificuldades”.

Vencedores
Apesar de todos os problemas que surgem, segundo a pesquisadora, todos os alunos se consideram vencedores por estarem estudando na USP. “Nem sempre as dificuldades são superadas. No segundo ano de universidade alguns dos alunos entrevistados já apresentam notas baixas e reprovações. Mesmo assim, consideravam-se vencedores e não cogitavam abandonar o curso.”

As ações a serem aplicadas pela universidade para ajudar os alunos oriundos da rede pública de ensino devem focar os cursos e suas especificidades. “As diferenças entre os cursos vão além das áreas de conhecimento”, afirma Valéria. Um exemplo disso é o curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). “Os alunos se relacionam pouco. Existem muitas aulas em turmas diferentes. Isso atrapalha a integração entre os estudantes. Seria preciso propor atividades de relacionamento entre os alunos.”

A conclusão do trabalho traz indicações da necessidade de formação contínua dos professores deste nível de ensino: “Não existe uma cultura de trabalho coletivo entre os docentes do ensino superior que não têm formação pedagógica, mas deveriam ter. Eles precisam discutir e refletir sobre a função da universidade e conhecer individualmente os alunos, suas dificuldades”, afirma a pesquisadora. Fonte – Agência USP de Notícias

Por: Instituto EADVIRTUAL   @   18-10-2011     |     2.127 visitas     5 Comentários
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5 Comentários

Comentários
18-10-2011
18:16
#1 Francisco de Paula Identicon Icon Francisco de Paula :

As Universidades Estaduais ou Federais deveriam nivelar seus educadores, pois na maioria só detém títulos e se escondem no mesmo não se desenvolvendo como exigem dos seus alunos.

10-11-2011
12:35
#2 Fernando Identicon Icon Fernando :

Mesmo a USP ainda tem muito a melhorar…..Organização, principalmente

12-11-2011
15:52

Alguns professores não só da USP, ou de qualquer outra Universidade, Faculdade, Ensino Fundamental público ou privado, deveriam estudar um pouco mais o sistema de ensino de alguns grandes filósofos, que muitas vezes ensinavam não em uma sala de aula, mas sim em um jardim, através de um simples cair de uma folha de uma árvore.

Existe um ditado chinês que diz, que o verdadeiro “SÁBIO” é aquele que volta ao começo. Professores! Muitas vezes na hora da prática do ensino, temos é que desser a escada, e não esperar que os alunos a subam.

Um Grande Abraço a Todos!

16-11-2011
11:57
#4 Loureiro Identicon Icon Loureiro :

São novos desafios para essas grandes instituições de ensino e pesquisa. De imediato quem pagará a conta será a população que usufuir dos serviços e dos produtos desses novos profissionais, é claro que haverá excessão. Mas, o problema não é de origem exclusiva dos oriundos da rede pública, mas também dos que vem de péssimas escolas particulares. Isso tudo ocorre pelo simples fato de governos em geral, não investirem na educação, no emprego, na previdência, na habitação, na saúde, etc. É mais rápido e barato para os governos distribuirem diplomas e criar cota pra isto, para aquilo,…

29-11-2011
13:20

Quando somos alunos queixamos do professor, quando estamos na postura de professor, queixamos do aluno!

Como melhorar isso?

O aluno precisa saber o conteúdo, não podemos reduzir o conteúdo, mas com certeza, precisamos rever nossas práticas. Como ensinar? O que ensinar? Como avaliar? São perguntas que deveriam estão na pauta de toda discussão de professores.

Outra questão, se transferirmos a mesma pesquisa para um curso de EAD, será que a resposta dos alunos serão diferentes?

Muito bom o post, obrigada por publicá-lo!

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